Cai-N’água

Eu sou essa máscara, esse chitão,
e meu rosto, amigo (a), é a cara do povo.
É uma mistura de desespero com inflação,
mãos desempregadas e fome, nada de novo.
 

Sou o mistério que nunca se explica
por tal dúvida cá dentro e lá fora;
o que fala o indevido, o tapa de pelica,
uma candinha rouca, o que faz hora.
 

Sou alguma timidez assanhada,
Bruxo de crianças e mágico,
pois o meu avesso é fossa e nada,
pois o meu espelho é josta e trágico.
 

Meu rosto de povo é muito asceta,
 e esse capuz é velho folião,
ele tem o rumo das diretas,
ele quer liberdade, terra e pão.
 

Sou aquele tanto que cai-n’água
de suor, da chuva e da cachaça,
porque é assim que purga a mágoa
o povo da folia e da desgraça.
 

Eu sou essa máscara, esse chitão,
folk de Oliveira, crítica dos lodos,
cai-n’água, pato, rua do Cordão,
e, por ser anônimo, me declaro todos.
 

Márcio Almeida é professor universitário, poeta, jornalista, publicitário, verbetista da Enciclopédia Barsa; membro efetivo da Comissão Mineira de Folclore, cai-n’água, criador da Comissão Pró-Cai-N’água Centenário de Oliveira.