Fomos à casa de um Cai-n’água de ata mais velha e quisemos conversar com ele sobre esse assunto carnavalesco, mais propriamente sobre o personagem Cai-n’água, que sempre usou nos seus tempos de menino, adolescente e na juventude. Vestiu sempre. Brincou em todos eles, divertindo-se muito. Nosso entrevistado é Sebastião Lopes - Dunga, no bairro das Graças. Assim ele nos respondeu em sua casa:

Pergunta: Dunga, o que é ser um “Cai-n’água” para você?
Dunga: É ser alegre sempre e divertido. Sair com os colegas, alegrar as ruas e praças, levando a todos uma boa mensagem.

Pergunta: Você tinha turma ou era solitário pelas andanças de rua?
Dunga: Saía sempre em grupo, em turma. Cada um levava seu instrumento e íamos pela rua cantando e batucando. Saíamos como um conjunto formado de um surdo, pandeiro, violão, cavaquinho, tamborim e uma sanfona. Dava para animar bem as pessoas nas portas e nas ruas... Era uma alegria danada...

Pergunta: O Cai-n’água hoje é uma questão de cultura da cidade ou ainda não chegou a ser?
Dunga: É sim uma cultura de Oliveira. É tradicional na nossa cidade, e todo mundo gosta do Cai-n’água. Só que caiu muito e não é mais como no nosso tempo. Parece que a animação não é mais a mesma...

Pergunta: Há muitas diferenças entre o “seu tempo” e hoje?
Dunga: Olha, no meu tempo havia mais respeito com a brincadeira de Cai-n’água. Todos se divertiam mascarados, guardando sempre o anonimato. Hoje eles tiram as máscaras em qualquer lugar e hora, não importam mais com o ser anônimo, oculto, curiosidade que todos gostavam.

Pergunta: Você tem alguma sugestão para melhorar mais o carnaval e o Cai-n’água de Oliveira?
Dunga: Nosso carnaval já foi dos melhores de Minas. Melhorar é preciso a volta das escolas de samba e mais alguns blocos. Agora os Cai-n'águas eles devem respeitar mais suas fantasias e não tirar a máscara fora de hora e lugar. É manter a sutileza da figura...

Pergunta: Você sabe quem vestiu as primeiras máscaras e dominós em Oliveira?
Dunga: Não tenho muita precisão... Mas comenta-se que nos velhos tempos vestiram seus dominós o Idemburgo, Sete Copas, Afonso Relógio, José Bentinho, Mazuca, Guidão, e outros que não me lembro agora...

Pergunta: Você tem um acontecimento legal que possa contar?
Dunga: Tenho sim.

Nós saímos da Rua do Sapo, como era chamada antigamente, eu, o Zinho Veloso, Paulo Carriço, Darinho Lengo e mais alguns que formavam a nossa turma. Fomos até a Rua do Capim, na casa do senhor João dos Santos, onde ali nosso colega Zinho Veloso deveria dar uma descansada, pois havia quebrado uma perna e mal tratada, fazia-o puxar bastante, mancando muito. Por isso se cansava. Ali nós combinávamos de todos mancarem de alguma forma, para confundir os que conheciam e não ser ele identificado. "Vamos todo mundo mancar, gente. Assim nóis dispista eles..." - principalmente seu colega de trabalho, pois os dois trabalhavam na Rede Ferroviária, antes Rede Mineira de Viação. Lá chegando, fomos convidados para entrar na casa, gente de família, pois o calor estava muito forte.

Lá dentro, resolveram tirar os dominós e as máscaras, era uma tática de despiste daqueles que gostavam de fazer reconhecimento dos elementos para chamar pelo nome lá na rua, quebrando o sigilo e anonimato que exigiam. Eu tinha uma máscara de borracha muito feia, não quis tirar e fiquei do lado de fora da porta, pois ela impunha respeito e ninguém chegava. Seu João chegou e disse: "Cai-n’água, você não quer tomar um gole?" Eu disse: "Aceito, sô João... Pode trazer, mas minha máscara não atrapalha não. A boca é larga..." Ele trouxe e eu (gesticulando) tchum... Bebia. Seu João sempre perguntava para os outros quem era aquele Cai-n’água da porta que não quis tirar a roupa e nem trocar... Os companheiros diziam que não sabiam quem era. Fomos embora.

Um dia fui identificado pelo João. Passado o carnaval, encontrei-me com ele e perguntei se ainda tinha da pinga que nós tomamos na sua casa. Seu João foi tomado de surpresa e respondeu: "Uai! Você nunca foi na minha casa, como é que você sabe?" Aí eu respondi: "O Cai-n’água da máscara feia era eu". Ele deu uma risada e disse contente: "Você é muito safado!" E riu mais ainda.

Mas foi nesse lance que eu deixei de me mascarar no carnaval. Noutra ocasião, ele chegou pra mim e disse: “Você pode entrar, Dunga, que agora eu sei o seu nome e quem você é...” Eu perguntei: “Quem falou para o senhor quem sou?” Ele entregou... “Foi seu companheiro fulano de tal quem me falou lá dentro...” Eu entrei, mas já sem graça. De lá fui pra casa, tirei o dominó, entreguei pra minha mãe, e disse para ela fazer uma cortina ou o que quisesse com ele, pois Cai-n’água não seria nunca mais. Minha identidade tinha sido quebrada pelo meu companheiro. Acabou eu botando fogo nele, e até hoje, nunca mais pus máscara na cara. Um Cai-n’água deve preservar sua identidade e aí é que está a graça da fantasia de dominós e máscaras. Cai-n’água conhecido não tem graça.