Num ligeiro retrospecto, o carnaval brasileiro teve seu início como uma festa popular, trazido pelos imigrantes portugueses que chegaram ao Brasil logo da sua colonização. Tinha nome de “Entrudo”, como em Portugal. Nas comemorações os chamados “foliões” atiravam água, farinha, ovos e até cal uns nos outros e era só alegria. Porém, foi censurado por pessoas de melhor ou maior poder aquisitivo, cuja intenção era se apoderar da festa e administrá-la. Na época, comemorava-se em salões. Teve como conseqüência o espaço aberto para a festa ser levada para a rua, popularizando-se ainda mais e iniciando aí uma significativa transformação para se tornar uma das maiores festas populares e alegres do Brasil, fazendo-se crescer cada vez mais. Ganhou o povo. Ganhou a cultura. Ganhou a alegria que motiva a expectativa de motivação e participação da grande maioria. Uma vez que a minoria sempre prefere comemorar com excessos etílicos, retiros espirituais, praias, passeios em fazendas, momentos de descanso e fugas do stress das cidades.
Em todo o país os foliões vão para as ruas dias e noites, fantasiados ou não, sóbrios ou “calibrados” de álcool, para viver esses momentos de intensa alegria. Cada estado, cada cidade promove seu próprio carnaval, com seus tipos, suas culturas, seus habitantes e visitantes, um carnaval adequado, uma verdadeira etimologia da festa, o folclore do país. Particularmente em Oliveira, o carnaval teve seu início um tanto elitizado e apoiou-se em Mirandinha, Waldemar Fernal e alguns mais da classe alta para se realizar. Foram pessoas mais ousadas que não tiveram medo da moral, da censura, para fazer a alegria correr pelas ruas, as pessoas sempre contagiando. Nos tempos em que lança-perfumes, confetes, serpentinas vinham de navio da Argentina e eram distribuídos pelo Brasil, ainda quando a malícia dava lugar à alegria e ambas ignoravam os males químicos do lança-perfumes, em spray, de metal, e os limões de cheiro foram sendo substituídos. Os mais ousados cantavam e pulavam na rua direita, os mais desinibidos confeccionavam roupas coloridas, enquanto uma platéia surpresa assistia a “festa do momo” acontecendo, das laterais da rua, com os corsos passando, pessoas jogando limões de cheiro, confetes, serpentina, espremendo o spray de lança-perfumes. Música, muita música e caixas batendo. Assim até mais alta hora da noite, durante os três dias que antecediam a cinzas.
Cai-n'água
E foi nesse clima de grande agitação que apareceu o nosso tradicional “Cai-n’água”. Alguém vestindo um roupão colorido ou não, um capuz na cabeça, máscara no rosto para preservar sua identidade bem anônima, uma vara fina na mão, tamborim na outra, ou então executando batuque pela rua afora, dentro da cadência característica do carnaval. Na linguagem, uma só manifestação: “Ô ligação... Ô ligação...!”. Nas mãos, basta um par de meias e não as luvas propriamente.
Nesta figura o carnaval teve um apoio incondicional, irredutível. Nesta figura o que faltava para atrair e envolver a criançada foi alcançado. Tanto que o carnaval modificou... O “Cai-n’água” permanece firme, nos trejeitos que lhe são peculiares. Conservaram-se as bases da figura, só alterando a participação. A indumentária permanece, mas os que a usam variam em idade, sexo, disposição, prazer, alegria. Outrora, espetaculares corridas atrás das crianças... Hoje só farra... Só vontade de participar e cumprir o ritual de ir pelas ruas e bairros, batucando, ritmando um surdo, dedilhando um violão, até já bem gasto pelo tempo, um tamborim... A farra está formada. Ninguém fica sem se envolver ou mexer as cadeiras à suas passagens em bando.
No meio, algum mais afinado arrisca a “puxar um samba”:
Vai, vai depressa,
vai buscar o meu amor...
que eu estou chorando,
é demais a minha dor...
Vai agora, não demora,
traz meu amor aqui...
eu queria ver teus olhos
antes de partir. Vai depressa...
Ou então a gente se lembra do Naninho, bem desafinado, de dominó azul claro, cantando a música que mais gostava, depois de haver ingerido umas duas cervejas.
Aquele lencinho,
que você deixou...
era um pedacinho
da saudade que ficou.
Aquele lencinho...(L. Airão)
O carnaval de Oliveira lembra bem do Cai-n’água Sete Copas correndo feito um bólido, para apanhar o menino que o chamou pelo nome, descobriu sua identidade. Gritou, acertou, procurasse casa para entrar porque não dava tempo de chegar à sua. Em termos atléticos, um talento que hoje poderia ter boas oportunidades em corridas velocistas, especializadas dos esportes...
Os Cai-n’águas deram também um apoio muito bom à AESO, fundada há cerca de vinte anos, pelo carnavalesco João Haddad e alguns amigos, que deram uma organização no carnaval de rua, logo do surgimento das escolas de samba, o bloco do Maurício, Sebastião Lemos, Leitão e Manoel, dona Íris de Castro. Já os Cai-n'águas sustentavam o clima há muitas décadas. A AESO foi auxiliada pela Prefeitura e particulares, que sempre quiseram um carnaval no auge, o que Oliveira chegou a ter por algum tempo. A situação econômica foi fator sério para o declínio no qual se instalou até esses momentos atuais.
O Cai-n’água oliveirense é um forte, um desbravador, um impartível, porque sempre usou da humildade e da igualdade para se fazer. Com esta filosofia, continua sendo prioritário no nosso carnaval.
Ouviu-se um apito: o Cai-n'água vem vindo!
Um apito de alerta. Faz parte do coro da batucada. Todos à janela e o bando passa mostrando alegria verdadeira, singela, bem viva, alguns acenando para aqueles que os olham passar. São os donos do pedaço. Os reis por poucos dias de reinado. O samba vai embora. Dobrou a esquina e tomou seu destino... O de levar graça e alegria aos que estão em outros lugares. O apito já vai bem longe. O coro dos meninos continua meio apagado: Cai-n’água... Cai-n’água... Cai-n’água... Eles não voltarão. Não, porque têm a missão de levar a alegria em “bando” lá pra cima! Amanhã, talvez, eles voltem.Se não, só ano que vem. Mas conte certo, porque eles, mesmo sendo outros não deixarão de vir. Os Cai-n’águas são fiéis. Eles vivem até nas nossas lembranças, nas nossas vontades, nas nossas esperanças. Sofremos com as suas ausências. Eles fazem parte da nossa saudade, que às vezes nos obrigam a inventar uma festa comemorativa para “pô-los na rua temporonamente”, satisfazendo nosso ego entristecido. Viva o Cai-n’água, que é cada um de nós, quando deixa de ser a si mesmo.
Nossa finalidade neste espaço é abrir a oportunidade especial de cultuar nosso Cai-n’água Centenário, que faz a alegria da cidade, das crianças.A lembrança dos velhos, o entusiasmo do recente, a vivência dos atuais. Daqueles que vivem da alma e do coração. Que se doam nesta sublime realização, pura enquanto ingênua.Viva enquanto adormecendo, para se despertar durante poucos dias de cada ano.
Alguns dados da sua história
O Cai-n’água de Oliveira sofreu adaptação do tipo que se usava em Portugal, conforme figura veiculada no livro “Folclore”, da coleção de "Olho no Mundo", da revista Recreio. Lá usavam macacões largos e coloridos, com máscaras de pano trabalhadas para esconder o rosto, punham fisionomias estranhas para assustar, fazer rir, divertir; aqui, também, fez-se a mesma coisa, só, que de forma diferente. As primeiras máscaras foram feitas por Marinho, que morava na Rua Osvaldo Cruz, numa casa simples situada onde hoje está a família do Zé Alves, de frente à “Creche Pé de Manacá”.Ali ia fazendo com argila cinza cada modelo, depois de seco, cobria a primeira camada com papel molhado na água, depois com grude de polvilho fazia as outras até ganhar espessura.
Punha para secar ao sol, depois de dois dias já estavam prontas para o acabamento. Pendurava-as na janela da rua e todos aqueles que as queriam iam comprar a preços que variavam de cinco a dez mil réis. Coloridas e bonitas, enfeitavam suas janelas num conjunto de graça e de horror pelo que criava.
Por falar em artesão de máscaras, não podemos deixar de mencionar o Zé Bentinho, no Bairro das Graças, antiga Rua do Sapo; só confeccionava os cabeções, principalmente do Amigo da Onça, charge de Péricles para a revista “O Cruzeiro”.
Era artesão bem criativo, criava máscaras de enfiar pela cabeça, personagens variados, belos e mais caros, pelo trabalho da confecção e lentidão de produção.
Podemos falar também de Milton Ribeiro Teixeira, criador de máscaras de rosto, personagens variados, criativos, muito procurado nos dias de antecedência do carnaval, fazia pelo mesmo processo do Marinho. Usava também argila, papel, água e grude.
E hoje temos Salatiel Fernandes, residente à Rua Batista de Almeida, que com grande sensibilidade, talento e capacidade criativa, faz artesanato e as máscaras que muitos Cai-n'águas usam pelas nossas ruas.
Os dominós
Houve um tempo, nos primórdios, ou no despertar do carnaval de Oliveira, que os candidatos mesmos faziam seus dominós, ao seu gosto, variedade de cores, chitão, seda ou algodão, do jeito que queria. Mas é importante registrar aqui a mini-indústria de dominós, montada por dona Alda Mendes, em sua própria residência, para atender a esses reclames. Confeccionava muitos, vários tamanhos, largura, cores, para quantos dias a pessoa quisesse, eram alugados. Havia também a “Ordem” que só a delegacia fornecia, mediante uma taxa espacial. Era delegado o Sr. João Mendes, seu esposo. Alugava-se o dominó e ia à delegacia tirar a ordem para vestir de Cai-n’água. Sem ela, o mascarado podia ser preso e destituído da roupa, se fosse apanhado no flagrante. Era organizado... A ordem ia no peito ou na carteira do Cai-n’água. Caso fosse apanhado, seria só apresentá-la e estaria liberado. Se não a tivesse, ponto final no seu carnaval, ou regularização.
Fato Pitoresco
Nelson da Dorcelina, operário da Sapataria Progresso, morava no Alto São Sebastião, Cai-n’água assíduo de todos os anos, em todos os dias e a cada ano variava de Dominó; no carnaval de 1958 fez Dominó nas cores verde e amarelo, listras largas em sentido vertical, na época foi considerado um ultraje à Bandeira Nacional. A polícia não gostou e foi atrás para prendê-lo, Nelson correndo na frente, entrando e saindo ruas, e os policiais no seu encalço. Foi para os bairros, não ficava livre da perseguição. No principiante Bairro DomBosco, já cansado, teve idéia brilhante. Pegou carona no trem na Estação João Pessoa, próxima à fábrica de tecidos, conseguiu driblar a polícia e foi até à Praça Manuelita Chagas, Estação de Cima onde hoje está o hospital; tirou o dominó dentro do trem, embrulhou, e foi depois para casa e não o vestiu mais. A polícia procurou-o e não o encontrou, desistiu. Ele cansado até a alma de tanto correr... Almoçou e dormiu pra se recuperar.
A criançada dos anos 50 achava que os melhores Cai-n'águas eram aqueles vestidos de dominó preto, com caveira entre ossos nas costas. Eram os mais velozes e quando pegavam, davam doídas varadas. Os mais corajosos não se arriscavam a “aboiar” mais de perto o "Cai-n’água pato, cai no seco pelado... Cai-n’água... Cai-n'água..." nas esquinas e altos de praças.
Outros e mais alguns diziam: "Aqui tá muito calmo, vamos buscar alguns lá em cima?" Em cima? Na praça... Ou no bairro próximo. Às vezes, até perturbando a celebração de Missa na Igreja, com aquele tanto de menino a gritar.
Alguns Cai-n'águas mais antigos e alguns mais novos
Marinho, Idemburgo Salgado, Nicão Alfaiate, Guidão da Ita, Afonso Relógio, Sebastião Lalau, Nelson e Nilson da Dorcelina, José Maria “Sete Copas”, Paulo Lopes, Geraldo Lopes, Zé Lucas, Zé do Rumão, Tum da Valdete, Paulo Carriço, João do Estevão, Osvaldo de Abreu-Ló, Tião Babão, Nelson Casqueiro, Daca, José Maria Santos, Azuil Manoel, Jaime Manoel, Pedro Henrique Anastácio, Tôti, seu irmão, Dunga, Juquinha Ferreira, Pedro Calixto, João Calixto, Indiúca, Josimar de Oliveira, Tonho Lebre, Nelson Rosa, Tuzeca, Toninho Bispo, José Pereira, e tantos outros cujos nomes multiplicaria esta relação.
Vinte Cai-n'águas mais empolgados
Carlos José da Mata (caizé), Antônio Claret de Souza, João Batista Belo, Antônio Fonseca, João Lemos dos Santos, Rodrigo da Mata da Silveira, Laércio Almeida Sardinha, Hermínia Teixeira, Maria Isabel Castro Machado, Emília Machado, Heleno Machado, Gilson de Castro, Fabiano Laranjo, José Maria “Sete Copas”, Sebastião Lalau.
Elas... As gatas... Miau!
Não vestiam dominó. Apenas e simplesmente calça comprida, a blusa de mangas compridas, branca, gravata caindo, máscaras de enfiar na cabeça, com as quinas do saco amarradas em forma de orelhas de gato. Diziam ”miau” e falavam fino imitando personagem de desenho animado. Não portavam varas, apenas os trejeitos de comportamento e andavam em grupos de amigas. Eram as ”delicadas” do carnaval.
Grupo dos "13"
Laércio Sardinha, Josimar de Oliveira, José Delfino Borges, reuniram e criaram os Cai-n'águas de dominó branco, figuras de uma carta de baralho. Ás de Ouro, enfeitado em vermelho. Passou-se, depois, a um bloco onde vários elementos faziam homogeneidade do “13 de Ouro”, mais tarde passando a Escola de Samba que ficou famosa e fez história no carnaval de Oliveira.
Os "Caveira"
Trajavam-se de Dominó totalmente preto. Andavam em grupos e perambulavam pelas ruas batucando, às vezes correndo com as crianças, não se misturavam com outras cores. Passavam a idéia de personagens especiais, que corriam muito, eram ferozes, davam varadas. Meras fantasias nas cabeças das crianças que gritavam e corriam durante o dia e à noite iam para o desfile noturno na praça quinze. Reunidos passavam num grande número pela rua direita e diante do palanque e dos jurados.
Por que "Cai-n'águas"?
A teoria mais aceita sobre a origem do Cai-n'água pode ser lida no texto "Cai-n'água: origens de uma tradição centenária", de Márcio Almeida. Mas já ouvimos contar uma lenda que tem um fundo bem interessante e que não poderia deixar de ser citada: ela diz que certo Cai-n’água solitário buscava o endereço na Rua do Sapo (Bairro das Graças). O trilho que dava acesso mais fácil do centro para o bairro passava onde há hoje a ponte que chega à Igreja. Porém não havia ponte, somente uma “pinguela” feita de troncos de árvores, do próprio ambiente. O Cai-n’água estava embriagado e vacilou ao passar. Tentando, escorregou os pés e foi parar dentro d’água, molhando-se todo. Conseguiu, mas foi flagrado por algumas crianças que tomaram aquilo por motivo de “aboio” e passaram a gritar “Cai-n’água pato, cai no seco, pelado“. Assim surgiu o nome do personagem que entrou para a história do carnaval de Oliveira. A data ninguém marcou. Por isso não há precisão no fato e nem comprovação da lenda.
Fato é que o Cai-n’água do carnaval oliveirense tornou-se um personagem que ainda vai dar muito o que falar. Somente daqui a mais uma ou duas décadas se precisará, após outras pesquisas mais acuidosas, todos os dados que hoje ainda não se têm precisos. Para haver histórias é preciso haver documento comprobatório, que autentica o fato e o feito. Isto ainda vai acontecer um dia e a história do carnaval de Oliveira terá muito de se orgulhar. E o Cai-N’água se imortalizará como a cidade de Oliveira.
Marco histórico
Márcio Almeida, além de suas qualidades de poeta, literário, pesquisador, professor, escritor e autor de livros, tem também alguns momentos voltados para a história. E foi num desses que idealizou a memorização do Cai-n’água, através de um busto na praça XV de Novembro. Idealização sua, projeto de Maria Isabel Leão Silveira, confeccionando por Elisa Pena em 1991, inaugurado em 10 de fevereiro de 1994 nas comemorações centenárias do personagem. Formou-se uma diretoria; convocados os mais entusiasmados, ali se implantou o marco de uma história de mais de cem anos. Hoje ele está ausente, por ação de vândalos notívagos, mas deverá voltar ao seu lugar de méritos.